Porque regressamos à prática?

Há coisas que só percebemos quando deixam de fazer parte da nossa rotina.

Durante semanas, meses ou até anos, podemos praticar yoga regularmente sem pensar muito sobre o que a prática está, de facto, a trazer para a nossa vida. Fazemos a aula, estendemos o tapete, respiramos, movimentamo-nos e seguimos para o resto do dia.

Até que paramos.

E é muitas vezes nessa pausa que começamos a notar pequenas diferenças.

O corpo pode estar mais rígido. Alguns movimentos que antes eram naturais deixam de o ser. Podemos sentir menos força, menos mobilidade ou simplesmente uma maior dificuldade em perceber como o corpo está a responder ao movimento.

Mas talvez não seja apenas isso.

Quando a mudança não é apenas física

Uma prática regular dá-nos, entre outras coisas, oportunidades para prestar atenção.

Durante uma aula, somos constantemente convidados a observar: como está o corpo hoje? Onde existe tensão? Como estamos a respirar? O que acontece quando mudamos uma posição? Estamos a fazer força a mais? Estamos a evitar alguma sensação?

Esta atenção não fica necessariamente no tapete.

Com o tempo, podemos começar a reconhecer melhor determinados padrões: quando estamos tensos, quando estamos cansados, quando estamos a prender a respiração ou quando estamos a ultrapassar os nossos limites sem sequer perceber.

E o mesmo pode acontecer com as emoções.

Nem sempre conseguimos identificar imediatamente aquilo que estamos a sentir. Às vezes percebemos primeiro uma alteração no corpo: a respiração fica mais curta, os ombros sobem, a mandíbula aperta, o peito fica mais contraído, o corpo fica inquieto.

A prática pode ser um espaço onde aprendemos a reparar nestes sinais antes de passarmos simplesmente por cima deles.

Não significa que uma aula de yoga vá resolver aquilo que estamos a sentir. Nem que conseguimos sempre interpretar corretamente cada sensação.

Significa apenas que, ao treinarmos a atenção ao corpo, podemos também desenvolver uma maior capacidade de perceber o que se passa connosco.

O corpo está sempre a dar-nos informação

É fácil pensar no corpo apenas como aquilo que utilizamos para nos movimentarmos.

Mas o corpo também nos dá informação constantemente.

A forma como nos sentimos ao acordar. A energia que temos. A tensão acumulada. A respiração. A forma como nos movimentamos. A facilidade ou dificuldade de realizar determinado gesto.

O problema é que nem sempre estamos disponíveis para reparar.

Estamos ocupados, a trabalhar, a responder a mensagens, a cumprir horários, a pensar no que vem a seguir.

E podemos passar grande parte do dia sem realmente parar para perceber como estamos.

É aqui que a prática pode ter um papel interessante.

Não porque o yoga seja uma solução para tudo, mas porque nos obriga, durante algum tempo, a estar atentos.

A estar dentro do corpo enquanto nos movimentamos.

E quando paramos?

Quando deixamos de praticar, perdemos também algumas dessas oportunidades de observação.

Talvez seja por isso que, quando voltamos depois de algum tempo, a primeira coisa que notamos nem seja a flexibilidade ou a força.

É a diferença entre estar no corpo e simplesmente estar a passar por ele.

Podemos perceber que estamos mais tensos. Que temos menos mobilidade. Que determinado movimento já não é tão confortável.

Mas também podemos perceber que temos estado mais acelerados, mais distraídos ou menos atentos ao que sentimos.

E isso não significa que tenhamos “perdido” tudo aquilo que construímos.

O corpo adapta-se.

Quando reduzimos determinado estímulo durante algum tempo, é natural que algumas capacidades se alterem. Força, mobilidade, resistência e coordenação não são características fixas — respondem àquilo que fazemos com regularidade.

Por isso, regressar à prática não precisa de ser uma tentativa de voltar imediatamente ao ponto onde estávamos.

É, antes de mais, perceber onde estamos agora.

Então, porque regressamos?

Talvez seja para voltar a sentir o corpo.

Talvez porque sentimos falta de nos movimentarmos.

Talvez porque queremos recuperar força ou mobilidade.

Talvez porque precisamos daquele momento sem notificações, sem tarefas e sem nada para resolver.

Ou talvez porque percebemos que a prática nos ajuda a prestar mais atenção àquilo que acontece dentro e fora do tapete.

E provavelmente não existe uma resposta certa.

A razão pela qual começámos a praticar pode não ser a mesma pela qual continuamos.

Podemos ter chegado ao yoga pela flexibilidade, pela força, pelas dores nas costas, pela curiosidade ou simplesmente porque alguém nos convidou para uma aula.

E, com o tempo, descobrir que aquilo que nos faz continuar é outra coisa.

A prática não precisa de ser perfeita para fazer diferença

Também por isso, acredito cada vez menos numa ideia de prática perfeita.

Há fases em que praticamos quatro vezes por semana. Outras em que conseguimos apenas uma. Há períodos em que viajamos, trabalhamos mais, ficamos doentes, mudamos de rotina ou simplesmente precisamos de fazer uma pausa.

A consistência não significa fazer sempre a mesma coisa.

Significa voltar a encontrar espaço para a prática ao longo do tempo.

E cada regresso começa exactamente onde estamos naquele momento.

Sem necessidade de compensar o tempo que passou.

Sem comparar o corpo de hoje com o corpo de há três meses.

Sem transformar a prática numa prova para perceber aquilo que conseguimos ou deixámos de conseguir fazer.

Podemos simplesmente chegar ao tapete e observar.

Como estou hoje?
O que mudou?
Do que preciso agora?

Talvez seja essa uma das coisas mais interessantes que o yoga nos pode ensinar: não apenas a conhecer melhor o nosso corpo, mas a estar mais disponíveis para perceber aquilo que ele nos está a dizer.

E talvez seja também por isso que, depois de uma pausa, sentimos vontade de voltar.

Não para recuperar quem éramos antes.

Mas porque reconhecemos aquilo que acontece quando voltamos a estar presentes.

Próximo
Próximo

O corpo adapta-se ao que lhe damos (ou deixamos de dar)